O dia em que a escória foi à forra

Quem você discrimina? Gaguejou, demorou demais para responder. Tudo bem, não precisa responder agora, nem depois de ler este texto.

Diz a lenda que, em determinado momento de nossa história, um grande pensador da humanidade, o senhor Claude Lévi-Strauss, foi convidado a fazer um discurso na ONU onde o tema em questão era cultura, diferenças, tolerância e essa ladainha toda. O mestre Strauss, então, foi ao púlpito, respirou fundo, deu uma ajeitada na cueca que atochava-lhe o rêgo e disse:

– Os povo é assim mesmo, jão. Não tem sociedade tolerante, não, meus trutas do mundo global, todo mundo odeia todo mundo e é assim mesmo… fazer o quê?

Todo mundo esperava uma apoteose onde o senhor supracitado fizesse todos chorarem e porem a mão no coração. Ao contrário. O mesmo tornou-se persona non grata nos arredores da ONU e nunca mais pode ficar junto com um grupo de pessoas com mais de uma nacionalidade diferente. Reza a lenda.

“Tem jeito, não. Senta e chora.”

Mas por quê escrever tudo isto? Simples: certo dia estava eu no metrô voltando de um certo lugar e em direção à casa de minha avó. Ao fazer a baldeação em certa estação, deparo-me com uma pessoa muito peculiar à minha frente, na escada rolante: uma senhora envolta por longos tecidos e acompanhada de mãos dadas com seu marido. Iam na mesma direção que a minha. Notei que ela chamava a atenção de todos ao redor, mas não conseguia ver o que se passava, pois ela estava de costas. Até que, quase terminando percurso da escada rolante, vejo o que havia de tão diferente em tudo isto – a mulher usava uma de burca, onde a única parte de seu corpo que ficava à mostra eram seus olhos.

Curioso com a situação, resolvi segui-los, de forma que pudesse pegar o mesmo vagão que ambos e ver o que decorreria de tudo aquilo. E assim foi. Sentaram-se. Fiquei em pé no vagão, enconstado em uma das portas, de modo a ver, em 180 graus, as reações das pessoas em relação ao casal. Todos trocavam olhares e viam com a mesma curiosidade que a minha aquela cena típica de jornais exibindo imagens do outro lado do mundo. Quando, então, uma imbecil quebrou o silêncio.

“Ah, ele que saia logo desse trem, não quero que ele exploda nada perto de mim, que vá pra lá”, dizia uma mulher. Loira, de média altura, exibia traços de obesidade mórbida, seja por não ter sido educada corretamente a se alimentar, seja por não ter bom senso ao escolher uma refeição ou seja por não ter dinheiro suficiente para comprar nada além de um X-tudo em sua hora de almoço. Era o tipo de mulher que é ponto de referência, todos apontam e notam sua respiração ofegante e sua pele lustrada pela transpiração quando passam por ela ao caminharem pela rua. O tipo da mulher que tem vergonha do corpo para ir à praia ou que sente constrangimento ao se sentar em assentos estreitos, mas nunca tem este tipo de sentimento ao comer em público.

Esta é uma burca

Sua interlocutora, que apenas dava risada dos resmungos, era negra. Gargalhava com gosto, exibindo a falta de alguns dentes em sua boca. Por estar naquele horário no metrô, provavelmente retornava de seu trabalho, mas pela sua face maltratada e pela condição histórica que tem sido imposta à sua raça ao longo dos anos no país, provavelmente ocupava um subemprego daqueles em que se é invisível e que os outros só dão sua falta quando você não está lá. Além de sofrer humilhações não-verbais, deve contentar-se com um salário mínimo por mês, que tem de repartir com seus filhos.

“Olha só, coitada da mulher, não dá nem um espacinho para ela respirar! Que absurdo! Como vive assim?”, a loira continuava em tom de deboche para outra pessoa. Este, um jovem pardo. De fones de ouvido e roupas antigas já surradas, era o estereótipo do homem que tem sua entrada negada em uma agência bancária, ou é seguido por seguranças em qualquer loja de departamentos que entre. Também é a cópia fiel daquele que você levanta os vidros do seu carro quando vê atravessar a rua.

As três pessoas não se conheciam até o momento, mas resolveram ficar amigas para fazerem piadas e discriminarem aquele corpo estranho que era o casal. As palavras da loira gorda eram ditas de forma enfática e nem um pouco discreta, de modo que o casal certamente ouvira, visto que a distância era pequena e eu estava mais próximo da mulher de burka e seu marido do que daqueles três mazelados.

Ao casal, sobrou a serenidade de aturar aquelas palavras, visto que não a ouviam pela primeira vez.

Aos três, sobrou a vontade de esquecerem da vida que levavam e de todas as cicatrizes de seus corpos.

A mim, sobrou este texto e a sensação de como somos infelizes.

Ninguém se lembrou de admirar a expressividade dos olhos amendoados daquela mulher.

Disto tudo, apenas Lévi-Strauss tinha razão.

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52 Responses to O dia em que a escória foi à forra

  1. Caio disse:

    OPA, PRIMEIRO 😀

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  2. Tatá disse:

    o homem é o lobo do homem.

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  3. V. Miranda disse:

    O “etnocentrismo” é algo existente em toda cultura. Define os padrões e os valores sociais, morais… de um grupo.Por isso o relativismo ocidental carrega tanta controvérsia.

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  4. disse:

    Como diria minha vó: “É sujo falando do mal-lavado”

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  5. André disse:

    SIMPLESMENTE SENSACIONAL… VOCÊ FALOU O QUE O SENHORZINHO DA ONU NÃO FALOU…

    FILHO DE VÓ = DANILO MIRANDA

    CERTEZA… EU LI O TEXTO ACHANDO QUE ERA O DANILO MAS NÃO ERA MAS ERA HEHE

    EU FIQUEI MESMO EMOCIONADO COM ESSE TEXTO, ADMIRO MUITO O POVO E A CULTURA MUÇULMANA, E TENHO TRAÇOS EM MEU ROSTO DE MUÇULMANO, POR ISSO NÃO PISO NOS EUA SE NÃO ELES VÃO ACHAR QUE SOU TERRORISTA (mentira, não tenho dinheiro, mas amo os states)

    MAS QUE OLHOS LINDOS, QUE BELEZA OCULTA É ESSA QUE APARECE NA MINHA IMAGINAÇÃO SÓ DE OLHAR PRA ESSA MULHER DE BURKA???

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  6. Ana disse:

    Hahaha, muito bom,mesmo !

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  7. Airo disse:

    e a gorda explodiu?
    sempre tive essa sensação de que os muitos gordos e ofegantes explodiriam 😦

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  8. tulho disse:

    lindo. shorei.

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  9. luan disse:

    pelo menos houve um acordo entre etnias no meio disso tudo, pelo menos né ! :\
    como disse Renato Russo: é assim mesmo e vai ser assim pra sempre.

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  10. Diego disse:

    Bom o texto…

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  11. Anton disse:

    Também achei o texto ser de Danilo, mas pensei “ou é Danilo ou filho de vó (que ja havia feito textos de uma mesma forma).
    gostei muito, penso o mesmo e quero uma burka!!1!

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  12. Adam disse:

    Quando voce muda de país você tem que se adaptar a cultura local. Tá, não “TEM que”, mas se você decide continuar com os seus costumes, não precisa nem pensar que vai ser bem aceito por todos.

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  13. A.J. - Júnio disse:

    BOUAAAAAAAAAAAAAAAAAA

    =D

    \o/

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  14. nate disse:

    Ótimo texto,pensei que só eu parava pra pensar nessas coisas dentro de transportes publicos.

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  15. barbieQ disse:

    só tenho uma expressão:
    putaqueopariu.
    (e é um bom putaqueopariu)
    me arrepiei com o texto, serião.

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  16. Ravi disse:

    Quando comecei a ler achava que era o Danilo.
    Mas o filho de vó vem supreendendo tanto no humor quanto aos assuntos verdadeiramente sérios.

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  17. André disse:

    ADAM

    ENTENDO QUE TODOS TEM QUE SE ADAPTAR A CULTURA LOCAL

    MAS NÃO SER ACEITO É UMA COISA, SER DESRESPEITADO É OUTRA.

    DANILO PODE ATÉ NÃO SER O FILHO DE VÓ, MAS OS DOIS SÃO SHOW COM ESSES TIPOS DE TEXTO

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  18. Lucas Siqueira disse:

    q merda, de mundo nos vive

    mas tipo acho q nem todas a pessoas debochao daquela q sao diferentes
    creio q se se o 3 sao assim pq forao educados assim e a vida os ensinou
    a ser assim, mas por outro lado a pessoas como filho de vó q ficao quietas
    e tentao achar o lado bom das coisas e admiralas

    belo testo 😀
    FDV comanda…

    depois do B é claro :p

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  19. Johann disse:

    texto lindo, polêmico e verdadeiro.

    parabéns.

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  20. clederson disse:

    mto bom.

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  21. André disse:

    ainda acho que o Danilo comanda, mas o Filho de Vó ja ta virando TOP

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  22. paola disse:

    ótimo, ótimo, ótimo, ótimo, ótimo.

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  23. nicolas disse:

    excelente. só peço pra que mude “raça” pra “etnia”.

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  24. Piabives disse:

    Nossa, muito bom. Sem mais.

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  25. nini disse:

    Ótimo texto! Parabéns! A dura e crua realidade.

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  26. Julia disse:

    uau. babei aqui, muito bom!

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  27. Amanda Esiquiel disse:

    muito bom, cara.

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  28. Filho de Vó disse:

    Filho de Vó seu viado do caralho seu bicha loka to ligado que vc eh = DANILO seu troxa

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  29. Marília disse:

    Outro post brilhante por Filho de Vó. Ou quem quer que o tenha escrito 😀

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  30. ro0h disse:

    Tudo pobre sem cultura D:

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  31. diana; disse:

    incrível o texto, me emocionou de verdade.
    ‘meus truta’, haha.
    Filho de Vó ja ta virando TOP [2]

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  32. rata disse:

    filho de vó, eu te amo.

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  33. Caio disse:

    Filho de Vó indo pra casa da avó. Hm, interessante.

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  34. André disse:

    como dizia o Boça:

    “SOU FILHO DE VÓ COM ORGULHO MEU… FUI CRIADO A LEITE COM PÊRA E OVOMALTINO”

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  35. disse:

    Waahh…esse texto me fez refletir .-.

    se eu fosse a mulher da burka eu só chegava e falava: “meww, ti enxerga sua gorda” aff e aí dava uma voadora no crânio da gorda <ò.ó/

    Mas é sério! Adoray o post, filho de vó *-*

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  36. bisc8 disse:

    Gostei.
    Gostei mesmo.
    Parabéns pelo texto.

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  37. disse:

    eu sou libanesa, e se visse esse tipo de coisa na minha frente, acho que nao me seguraria e partia pra cima. Primeiro que essa loira num é nada pra ficar falando. aposto que tem um cabelo de agua oxigenada, que copiou do povo dos EUA. se nem ela respeita a propia cultura, pra que ficar falando de quem a segue?
    esse povo materializa de mais as coisas. só pq é loira, é burra. só pq é preto, é ladrao. só pqusa burka é terrorista.
    esse mundo tá perdido

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  38. Natii disse:

    não tem coisa mais idiota no brasileiro, do que a incapacidade de, ao invés de descriminar, absorver a nova cultura aos seus custumes atuais, para melhor aperfeiçoa – las.

    o brasileiro é tão ignorante, que chega a acreditar que, simplesmente a mulher esta de burca então é torrista. meu Deus, e depois ainda reclama que as coisas não vão pra frente, e ainda tem coragem de colocar toda a culpa nos nossos governantes.ou melhor, colocam a culpa nos governantes são escolhidos pelas mesmas pessoas incapazes de se comportar diante de uma pessoa diferente deles.

    brasileiro é burro, e tendo dito!

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  39. q? disse:

    Acredito que não se trata de sermos brasileiros ou isso e aquilo que definirá a tolerância. Em todas as culturas existirá etnocentrismo, pré conceitos, estereótiops e reprodução de valores adquiridos culturalmente.
    Se somos intolerantes, é porque não aprendemos as diferenças como positivas, não “entendemos” a diversidade. E obviamente atribuiremos julgamento de valor às pessoas e suas formas, porque ninguém é neutro.
    Então é um desafio para toda humanidade, não apenas para os supostos brasileiros “burros”, aprender a viver assim, com respeito às outras formas de ver e viver a vida diferentes da sua [que normalmente é tomada como referencial do que é correto].
    E o legal de citar os tipo de pessoas que cometeram o ato é de pensar que o discriminado pode também ser discriminador, é um movimento, tem um dinamismo nisso tudo. Estou pra conhecer alguém que não tenha preconceito ou não faça julgamento de valor algum em qualquer nível que for.
    Belo texto.

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  40. amina disse:

    teletubi tah mtu prafrentex nen curti menuos cultura maissis putaria lfwl

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  41. El Bisc8 disse:

    amina, vá morrer.

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  42. henrique disse:

    Tava bem esperando algo bem engraçado vindo d vc, mas o final me surpreendeu.
    MTo foda…

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  43. Paulo disse:

    o final, me surpreendeu; definitivamente. gostei do texto, muito sensível;

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  44. Dieguuu disse:

    nem li, 😦

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  45. SENOR ESMITE disse:

    FILHO DE VÓ = DANILO MIRANDA

    pf nao hein?

    ai, paxonay.

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  46. Matheus disse:

    Eis um post memorável. Fico com muita curiosidade de conhecer o verdadeiro autor. Como não será o caso, deixo aqui meus parabéns.

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  47. Matheus disse:

    Ah, sim: a vida como ela é.

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  48. Kazuo disse:

    olha teletube tbm é cultura XD

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  49. Ola!
    Gostei muito do seu texto, pois eu sou uma dessas que ja tentou usar a “burka”, (niqab) na verdade, aqui no Brasil, mas confesso que me senti muito constrangida com os olhares.
    Interessante saber o depoimento de quem esteve do outro lado da historia, e tao interessante quanto, foi ler os comentarios deste post…
    Talvez eu devesse largar a vergonha e seguir minha vontade…
    Esse post me deu um incentivo…

    Gostaria de saber se eu posso incorporar seu texto, com seus creditos claro, no meu diario?

    Obrigada!

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